Falar em saúde mental sem falar em racismo é deixar de nomear uma das violências que adoecem, isolam e dificultam o acesso ao cuidado.

A dor não nasce fora da história

Durante muito tempo, o sofrimento mental foi tratado como vergonha, fraqueza moral, falta de fé, ausência de disciplina ou incapacidade de “reagir”. Essas explicações não apenas simplificam experiências complexas: elas silenciam pessoas, culpam quem está adoecido e adiam a procura por cuidado. Quando esse sofrimento atravessa a vida da população negra, há ainda uma camada que não pode ser ignorada: o racismo.

O racismo não se limita ao insulto explícito. Ele organiza oportunidades, define quem é presumido competente ou perigoso, produz vigilância constante e transforma humilhações em rotina. Pode aparecer na escola, no trabalho, no atendimento público, nos serviços de saúde, nas relações afetivas e na forma como uma pessoa aprende a olhar para si.

Reconhecer essa relação não significa afirmar que toda pessoa negra adoecerá ou reduzir cada sofrimento a uma única causa. Significa compreender que a saúde também é produzida pelas condições sociais e pelas relações de poder. O racismo é um determinante social da saúde e precisa ser considerado na construção de um cuidado verdadeiramente integral.

Juliano Moreira: quando a ciência se recusa a hierarquizar vidas

No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, teorias racistas se apresentavam com a autoridade da ciência. A cor da pele, a mestiçagem e o clima tropical eram usados para explicar criminalidade, pobreza e doença mental. Desigualdades criadas pela escravidão e pelo abandono social eram convertidas em supostas inferioridades biológicas.

É nesse cenário que se torna incontornável a trajetória de Juliano Moreira (1872–1933), médico negro baiano, professor e um dos nomes centrais da psiquiatria brasileira. Sua importância está também na recusa de tomar a raça como causa natural da doença mental. Em oposição ao determinismo racial, Moreira chamou atenção para fatores clínicos, orgânicos e sociais, como infecções, alcoolismo, condições sanitárias, educação e ambiente de vida.

Sua atuação à frente do Hospício Nacional de Alienados foi marcada por esforços de modernização e por uma defesa mais humana do cuidado. É necessário evitar, contudo, a construção de um herói sem contradições. Juliano Moreira atuou dentro da psiquiatria de seu tempo, ainda atravessada por classificações, confinamento e relações desiguais de poder. Sua voz antirracialista abriu uma fissura importante em uma ciência que muitas vezes legitimava a exclusão.

Lima Barreto: a voz de quem esteve dentro do hospício

Se Juliano Moreira nos permite observar a transformação da psiquiatria a partir do médico e da instituição, Lima Barreto nos obriga a olhar a experiência pelo lado de quem foi internado. Escritor negro, crítico da República e do racismo brasileiro, Barreto foi levado ao Hospício Nacional de Alienados em 1914 e novamente entre dezembro de 1919 e fevereiro de 1920. Dessa segunda internação nasceram registros que mais tarde integrariam Diário do Hospício e o projeto literário O cemitério dos vivos.

Seus escritos expõem a perda de autonomia, a padronização dos corpos, a vigilância, o estigma e as hierarquias existentes dentro e fora do hospício. Ao escrever, Lima Barreto deixa de ser apenas alguém observado, fotografado, classificado e descrito por outros. Ele se torna autor de sua própria experiência.

Também é preciso resistir a uma leitura que reduza o escritor ao alcoolismo ou à internação. Lima Barreto foi um intelectual que percebeu com extraordinária lucidez as promessas não cumpridas da República e as permanências do racismo após a abolição. Sua escrita transforma a experiência do hospício em memória, denúncia e resistência.

Da falsa inferioridade ao sofrimento produzido pelo racismo

A história aproxima Juliano Moreira e Lima Barreto por caminhos diferentes. Moreira combateu a ideia de que negros e mestiços carregariam uma predisposição racial à degeneração. Barreto mostrou, por dentro, como a instituição e a sociedade podiam retirar identidade e dignidade de quem já era visto através do preconceito.

Décadas depois, a psiquiatra e psicanalista Neusa Santos Souza aprofundaria essa reflexão em Tornar-se negro. Sua obra permite compreender o custo psíquico de viver em uma sociedade que institui a branquitude como ideal de humanidade, beleza, inteligência e sucesso. O racismo também age na construção da autoimagem, no desejo de ser aceito e na exigência permanente de provar valor.

Uma abordagem antirracista da saúde mental não substitui o diagnóstico clínico, a psicoterapia, a psiquiatria ou outras formas responsáveis de cuidado. Ela os torna mais completos. Pergunta não apenas “o que há com esta pessoa?”, mas também “o que aconteceu com ela?” e “que violências atravessam sua vida?”.

Setembro Amarelo: escutar também é enfrentar o racismo

O Setembro Amarelo nos convida a valorizar a vida, falar sobre sofrimento e fortalecer redes de apoio. Mas uma campanha responsável não pode se limitar a frases motivacionais. Nem toda dor se resolve com força de vontade, gratidão ou pensamento positivo. E nenhuma pessoa deve ser culpada por não conseguir sair sozinha de uma situação de sofrimento intenso.

A escuta precisa ser concreta. Isso significa não minimizar relatos de racismo, não espiritualizar todo sofrimento, não responder com “você precisa ser forte” e não transformar o pedido de ajuda em julgamento. Significa acolher, respeitar o sigilo, incentivar cuidado profissional e acompanhar a pessoa na construção de uma rede possível.

Também significa formar profissionais da educação, da saúde, da assistência social e do serviço público para reconhecer seus próprios vieses. Uma instituição pode declarar que acolhe a todos e, ainda assim, escutar com menos credibilidade a dor de uma mulher negra, considerar agressivo um homem negro em crise ou interpretar como indisciplina aquilo que deveria mobilizar proteção e cuidado.

Um compromisso com a dignidade

Recuperar Juliano Moreira é lembrar que houve quem enfrentasse o racismo justamente quando ele se apresentava como verdade científica. Ler Lima Barreto é permitir que a voz do internado confronte a narrativa oficial da instituição. Dialogar com Neusa Santos Souza é compreender que a ferida racial não pertence apenas ao passado.

Que o Setembro Amarelo seja mais do que uma cor no calendário. Que ele nos ensine a perguntar sem invadir, a ouvir sem julgar, a encaminhar sem abandonar e a enfrentar as estruturas que transformam certas existências em alvos permanentes. Cuidar da vida também é recusar toda ciência, instituição ou prática que hierarquize a humanidade.

Referências e leituras recomendadas

AutoriaLília Maria de Oliveira Gonçalves

Educadora, escritora e especialista em Educação para as Relações Étnico-Raciais

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