Há instituições que não perdem seus melhores profissionais. Fazem algo talvez mais caro: continuam pagando por sua competência, mas deixam de ter acesso ao melhor que eles poderiam oferecer.
Isso acontece quando conhecimento, experiência e capacidade de realização deixam de determinar quem é ouvido e passam a competir com proximidade, conveniência, submissão e relações pessoais.
O profissional qualificado continua trabalhando. Mas percebe.
Percebe quando sua contribuição não recebe autoria. Quando seu conhecimento não encontra espaço. Quando resultados medianos são celebrados enquanto trabalhos consistentes permanecem invisíveis. Quando discordar tecnicamente é interpretado como problema de comportamento.
E existe um limite para exigir excelência de quem é continuamente tratado como dispensável.
A desvalorização intelectual também custa caro
Falamos muito de reconhecimento financeiro e devemos falar.
Mas existe outra forma de desvalorização extremamente corrosiva: a desvalorização intelectual do trabalhador.
É possuir conhecimento e não ser ouvido.
Ter experiência e não ser consultado.
Apresentar soluções e vê-las ignoradas.
Produzir e assistir a outros receberem reconhecimento.
Ser capaz de contribuir em alto nível e permanecer subutilizado porque a estrutura prefere pessoas mais convenientes.
Isso não produz apenas insatisfação.
Produz desinvestimento emocional e intelectual.
O profissional permanece na instituição, mas aprende a entregar apenas aquilo que ela demonstrou estar preparada para receber.
Gentileza não substitui gestão
Também precisamos rever algumas práticas utilizadas como estratégias de motivação.
Não há problema em homenagens, confraternizações ou pequenos gestos de gentileza.
O problema começa quando o simbólico tenta compensar aquilo que estruturalmente não funciona.
Nenhuma mensagem motivacional substitui reconhecimento profissional.
Nenhuma celebração substitui critérios transparentes.
Nenhum discurso sobre valorização substitui salário adequado, oportunidade, autoria, autonomia e participação.
E nenhum gesto de cordialidade substitui uma liderança capaz de reunir profissionais adultos em torno de uma mesa e dizer:
“Temos um problema. Vamos pensar.”
Profissionais qualificados não precisam ser permanentemente estimulados por discursos genéricos.
Precisam ser desafiados intelectualmente, ouvidos profissionalmente e reconhecidos concretamente.
“Aqui somos uma família.” Será mesmo uma boa ideia?
Talvez seja hora de rever também algumas expressões muito repetidas no ambiente profissional:
“Somos uma família.” “Somos um time.”
Cooperação é indispensável. Pertencimento também.
Mas uma instituição não é uma família.
É uma organização formada por pessoas que possuem funções, responsabilidades, competências, direitos, deveres e relações profissionais.
Famílias são estruturas afetivas. E justamente por isso podem tolerar desequilíbrios, silêncios, favoritismos e hierarquias que não deveriam ser naturalizados no ambiente de trabalho.
Quando uma organização utiliza a ideia de “família” para solicitar sacrifício, silêncio, disponibilidade irrestrita ou aceitação da falta de reconhecimento, o pertencimento deixa de ser saudável.
Transforma-se em mecanismo de conformidade.
E até a metáfora do “time” merece cautela quando significa que todos devem concordar.
Cooperar não é concordar com tudo.
Uma equipe intelectualmente forte não elimina divergências. Ela sabe utilizá-las.
No século da inteligência, precisamos de instituições que pensem
Esse modelo de gestão se torna ainda mais anacrônico diante do mundo em que vivemos.
Inteligência artificial, automação, mudanças tecnológicas aceleradas, novos modelos de trabalho, transformações econômicas e problemas cada vez mais complexos exigem instituições capazes de aprender rapidamente.
Não precisamos de salas cheias de pessoas concordando.
Precisamos de ambientes em que alguém possa dizer:
“Discordo. E estes são os meus argumentos.”
Precisamos de brainstorming real, análise de dados, diversidade de perspectivas, pensamento crítico e profissionais com autonomia para construir soluções.
Uma liderança que se sente ameaçada pela inteligência de seus subordinados transforma aquilo que poderia ser seu maior patrimônio em um problema.
No serviço público, a responsabilidade é ainda maior
No setor privado, desperdiçar talentos compromete produtividade, inovação e lucro.
No serviço público, a sociedade paga a conta.
E precisamos abandonar definitivamente uma expressão equivocada: serviço público “gratuito”.
Serviço público não é gratuito. É financiado coletivamente.
Cada estrutura, salário, equipamento, programa e política pública depende de recursos públicos, grande parte deles provenientes da tributação.
Portanto, desperdiçar profissionais altamente capacitados também é uma forma de desperdiçar capacidade financiada pela sociedade.
O cidadão não precisa apenas de servidores presentes.
Precisa de uma administração capaz de utilizar bem o conhecimento das pessoas que mantém em seus quadros.
O poder não produz competência
Cargo não transforma ninguém em especialista.
Autoridade administrativa não significa superioridade intelectual.
Proximidade com quem decide não é mérito técnico.
E silêncio não significa concordância.
Lideranças frágeis podem preferir pessoas que confirmem suas decisões.
Lideranças competentes fazem algo muito mais difícil:
cercam-se de pessoas capazes de melhorar suas decisões.
Porque profissionais brilhantes não diminuem um líder.
Eles revelam sua capacidade de liderar.
O problema começa quando uma instituição tenta convencer pessoas competentes de que desejar reconhecimento, autoria, desenvolvimento e espaço para pensar significa falta de humildade, de espírito de equipe ou de gratidão.
Não significa.
Significa profissionalismo.
Instituições maduras não pedem que seus melhores profissionais aprendam a conviver com a mediocridade.
Criam condições para que a excelência se torne referência.
Porque, quando a competência precisa diminuir para caber na estrutura, talvez não seja o profissional que esteja grande demais.
Talvez a estrutura tenha se tornado pequena demais para ele.
Fotografia: Monalisa Lacerda