Antes de aprender um conteúdo, a criança precisa sentir que sua existência é reconhecida, respeitada e bem-vinda.

Educar também é cuidar da forma como a criança aprende a se enxergar

Quando falo em educação antirracista, não penso apenas em conteúdos, datas ou projetos. Penso na criança que entra na escola procurando sinais de que aquele espaço também lhe pertence. Ela observa quem aparece nos livros, quem é apresentado como belo, inteligente e capaz, quais histórias recebem valor e como os adultos reagem quando sua identidade é atingida.

Essas experiências participam da formação da autoestima, da segurança emocional e da ideia que a criança constrói sobre o próprio lugar no mundo. O silêncio diante do racismo também ensina. A ausência de representatividade também comunica. E uma atividade isolada em novembro não repara um cotidiano inteiro de invisibilidade.

Por isso, a educação antirracista precisa ser leve na maneira de aproximar, mas profunda na intenção. Naturalidade não significa superficialidade. Significa permitir que as culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas estejam presentes como parte constitutiva da formação do povo brasileiro — e não como um assunto estranho, excepcional ou restrito à dor.

1. Representar para ampliar possibilidades internas

Revise os livros, as imagens das paredes, os brinquedos, os vídeos, os exemplos utilizados nas atividades e as pessoas apresentadas como referência. Crianças negras e indígenas precisam encontrar cientistas, escritores, famílias, lideranças, artistas, reis, rainhas e personagens comuns vivendo a plenitude da experiência humana.

Representar não é substituir um estereótipo por outro. É ampliar o repertório. Quando uma criança se vê apenas associada à escravização, à pobreza ou ao sofrimento, sua imaginação sobre si mesma pode ser estreitada. Quando encontra narrativas de inteligência, afeto, beleza, coragem, criação e pertencimento, ela ganha outras imagens internas para organizar sua identidade e projetar o futuro.

Ao professor cabe uma pergunta simples e poderosa: que mensagem meu ambiente transmite sobre quem pode ocupar um lugar de dignidade, conhecimento e protagonismo?

2. Intervir com coragem, clareza e cuidado emocional

Uma piada sobre o cabelo, a cor da pele ou os traços de uma criança não é um detalhe. Para quem foi atingido, a aula pode continuar enquanto a vergonha, o medo e a sensação de não pertencimento permanecem. Intervir exige coragem para sustentar uma conversa desconfortável sem humilhar ninguém e sem apagar a gravidade do ocorrido.

A liderança docente não se mede pela ausência de conflitos, mas pela capacidade de atravessá-los com integridade. Isso inclui interromper a violência, nomear o problema em linguagem adequada à idade, acolher quem foi atingido, registrar, comunicar a gestão e acompanhar. Vulnerabilidade profissional não é admitir impotência; é reconhecer que não temos todas as respostas e, ainda assim, assumir a responsabilidade de aprender e agir.

Uma linguagem possível

“O que aconteceu atingiu a identidade e a dignidade de uma pessoa. Vamos interromper agora, cuidar de quem foi ferido e compreender por que isso não pode se repetir.”

3. Integrar a ancestralidade à formação do povo brasileiro

As contribuições africanas, afro-brasileiras e indígenas não são um apêndice da história nacional. Estão na língua, na alimentação, na música, na tecnologia, na religiosidade, nos modos de cuidar, plantar, construir, criar e resistir. Trabalhar essa presença com naturalidade ajuda a criança a compreender o Brasil de forma mais verdadeira.

Essa integração pode aparecer na literatura, na matemática, nas ciências, nas artes, na geografia, na história e nas experiências da Educação Infantil. Não se trata de acrescentar uma tarefa à agenda do professor, mas de rever o olhar com que o currículo é organizado. A pergunta deixa de ser “quando vou trabalhar a cultura africana?” e passa a ser “por que ela ainda não está presente no modo como ensino o mundo?”.

As Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 tornaram obrigatório esse trabalho. Cumpri-las não é preferência pessoal, concessão ou projeto de um único educador. É responsabilidade profissional, compromisso curricular e ação de transformação social.

4. Valorizar identidade, memória e pertencimento

A criança aprende não apenas com o que escuta, mas com o estado emocional que uma experiência produz. Palavras, imagens, gestos e expectativas repetidos formam associações: “sou capaz” ou “não sou suficiente”; “sou bem-vindo” ou “preciso me esconder”; “minha história tem valor” ou “meu lugar é sempre menor”.

O educador pode ajudar a ressignificar essas mensagens ao utilizar uma linguagem que reconheça potencialidades, acolha emoções e convide à ação. Em vez de falar somente sobre o que falta, pode tornar visível o que a criança já carrega: história, ancestralidade, inteligência, sensibilidade e capacidade de construir novas respostas.

Isso exige atenção às expectativas depositadas sobre cada estudante. Quem é mais interrompido? Quem recebe menos incentivo? Quem é percebido como “difícil” antes mesmo de ser ouvido? A escola cria pertencimento quando transforma o reconhecimento em prática — não em elogio vazio, mas em presença, escuta, altas expectativas e oportunidades reais.

5. Acompanhar, envolver as famílias e transformar a instituição

Uma ação antirracista não termina quando a sala volta ao silêncio. É preciso acompanhar a criança atingida, observar reincidências, registrar o que aconteceu e verificar se as medidas adotadas produziram segurança. Protocolos protegem estudantes e também orientam profissionais, impedindo que cada ocorrência dependa apenas da sensibilidade individual de quem a presencia.

As famílias devem participar como parceiras, com comunicação respeitosa e objetiva. Não devem ser chamadas apenas quando há crise. Rodas de conversa, indicações de leitura, projetos de memória familiar e espaços de escuta ajudam a construir uma comunidade que compreende o valor da equidade e compartilha responsabilidades.

Também é preciso ousadia. O professor não pode esperar sentir-se completamente pronto para começar. Formação é indispensável, mas conhecimento sem ação não transforma estruturas. Liderar é dar o primeiro passo possível, rever práticas, pedir apoio, estudar, registrar e persistir. A coragem pedagógica não é ausência de medo; é a decisão de não permitir que o medo se torne desculpa para a omissão.

Uma escola em que cada criança possa existir por inteiro

Quero uma escola em que nenhuma criança precise diminuir seus traços, seus cabelos, sua história ou sua família para ser aceita. Uma escola em que a diversidade não seja tolerada à distância, mas reconhecida como parte da riqueza humana e brasileira.

Isso se constrói em cada escolha: no livro selecionado, na pergunta feita, na violência interrompida, na família acolhida, no registro realizado e na disposição de rever aquilo que sempre foi feito. A transformação social de que tanto falamos começa no cotidiano, quando o adulto assume que sua prática também forma a maneira como a criança perceberá a si mesma e ao outro.

Educar para as relações étnico-raciais é ensinar história, cidadania e justiça — mas também é cuidar da psique, da autoestima e do direito de pertencer.

Referências essenciais

  1. Brasil. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003.
  2. Brasil. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008.
  3. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CP nº 3/2004 — Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais.
  4. Brown, Brené. A coragem para liderar. Rio de Janeiro: BestSeller, 2019.

Da reflexão à prática

Materiais que ajudam a construir pertencimento todos os dias.

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AutoriaLília Gonçalves

Educadora · Historiadora · Escritora · Especialista em ERER

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